A Bicha Fêmea Convidada em Foco de hoje é uma blogueira do tipo que é rara na blogosfera. Nessa bonita eu enxergo sinceridade sem grosseria, amizade sem afetamentos e elegância de comportamento. Não lembro ao certo quem chegou primeiro no blog de quem, mas foi tudo muito sutil. E tem sido assim, sutil e delicado, até hoje.
Elaine Gaspareto, blogueira com sensibilidade a flor da pele, escreve no blog Um Pouco de Mim. O blog tem mais dela do qualquer outra coisa: tem sua sensibilidade permeando cada texto; tem sua alma feminina estampada em desabafos, relatos e contos; tem sua inteligência denunciada em textos críticos e de opinião fundamentada; tem sua generosidade derretida em posts metabloguísticos…
E mais ainda, tem ela própria, com seus textos a primeira vista de caráter umbigocentrista (como ela mesma diz…), mas que revelam muito da gente próprio. Desconfio que passe por aí todo o sucesso que o blog de Elaine tem alcançado, pela proeza de fazer com que tantas pessoas, tão diferentes, se enxerguem de alguma forma em suas palavras… é que Elaine se mostra transparente, sem máscaras, sem o que quer que seja, e com muita humanidade.
Por Elaine Gaspareto – Um Pouco de Mim
Quando a Lidiane me convidou para escrever um texto para o Bicha Fêmea fiquei muito feliz. Por 5 segundos. Depois fiquei muito preocupada. Por 1 mês. Mas quando sentei para digitar o texto que já estava todo formadinho na minha cabeça fiquei feliz de novo e vou ficar feliz para sempre. Tá, prá sempre é exagero. Mas estou numa felicidade imensa de grande como diz minha sobrinha.
Acredito que isso acontece com todas as mulheres que têm um texto seu publicado neste blog tão emblemático para todas as bichas fêmeas que navegam por aqui. Mas claro que a preocupação é: sobre o que escrever? Eu pensei, pensei e cheguei à conclusão de que teria que ser algo original e único. Mas o que pode ser original neste vasto mundo blogosférico? Hum, deixa ver… Claro! Eu! Porque nós, bichas fêmeas, somos todas únicas. Irrepetíveis. Exclusivas. Vamos lá?
Eu tenho 37 anos. Nasci e vivi a vida toda numa cidade de menos de 40.000 habitantes.Casei aos 23 anos. Não posso ter filhos. Sou uma mulher muito simples, comum, do tipo que se você encontra na rua não olha duas vezes. Mas como toda mulher tenho um mundo dentro de mim.
Como disse, eu cresci em uma pequena cidade do interior de São Paulo. Sou caipira, sabe? E amo ser assim! Durante toda a minha infância eu vi minha mãe sendo submissa ao marido. Não só minha mãe, mas todas as mulheres que eu conhecia. Haviam dois tipos de mulher: as que se pareciam com minha mãe, donas de casa sujeitas ao marido-provedor-do-lar e as descasadas ou jamais casadas, enfim, as sem-homem (que expressão feia!). Essas pareciam viver melhor do que as amélias, mas um olhar mais acurado mostrava logo que não era bem assim pois o preço pela liberdade a mim me parecia alto demais.
O que fazer, então? Eu tinha horror de repetir o modelo que vira durante a vida toda em casa, um modelo que mesclava submissão (dela) e violência (dele). Mas também não queria aquela pseudo-liberdade, que me parecia muito radical e solitária. Para onde ir, então? Eu comecei a ler. Muito.
Enquanto as meninas da minha idade viam novela eu lia. E lia tudo o que me caísse nas mãos. E fui descobrindo que era possível uma vida diferente daquela que conhecia e na qual via murcharem mulheres que envelheciam antes dos 40 anos. Então eu conheci o marido. Claro que ainda não era o marido, mas veio a ser. Casamos jovens. E aprendemos juntos. Temos uma vida boa. Mas poderia ter sido diferente. Pois modelos ruins estavam por toda parte…
Não acredito em casamento que dure e que seja feliz para ambos os cônjuges se o marido chega em casa depois de um dia de trabalho e encontra a casa uma zona, com sujeira para todo lado, roupa suja espalhada e a janta por fazer. Também não há amor que resista a um marido que chega em casa, se joga no sofá e espera que a mulher chegue do trabalho, arrume a casa, cuide das crianças, faça o jantar e se produza toda para uma tórrida noite de amor. Como fazer, então?
Penso que se você assumir o papel de super mulher vai acabar cansando muito cedo. Não há neste mundo quem consiga ser mãe, esposa, profissional, mulher bonita e bem cuidada, dona de casa exemplar, boa de cama e mais um monte de coisas, tudo ao mesmo tempo e agora! As conquistas femininas são importantes mas trouxeram um pesado ônus para a nossa geração. Continuamos com tudo o que sempre foi nosso "dever" e assumimos outros tantos "deveres" que fico com medo de onde a coisa vai parar! Buscamos tanto a igualdade e ela está mais longe do que nunca! Duvida?
Então imagine a cena: um casal chega ao mesmo tempo do trabalho. A mulher senta no confortável sofá, tira o scarpin de salto alto e estica as pernas. Enquanto isso o marido vai direto para a cozinha começar o jantar. Enquanto isso vai dando banho no filho menor e ajudando o maior com a tarefa da escola. A mulher levanta, toma um banho bem gostoso, coloca uma roupa limpinha e cheirosa que o marido deixou sobre a cama enquanto arrumava o quarto e daí ela vai jantar. Depois do jantar ela vai assistir a novela enquanto ele coloca as crianças na cama e ajeita a louça que ficou na pia. Somente aí o marido vai finalmente tomar banho e desmaiar de cansaço, enquanto a mulher olha e pensa: "será que ele não me ama mais? Nem quis fazer amor hoje. Por que será?"
Imaginou? Quais as chances de acontecer? Mas o inverso acontece todo santo dia. Onde está a igualdade disso? Mas se deixar para o homem todo o peso das finanças de um lar não é mais possível, exigir de nós, bichas fêmeas do século XXI o desempenhar do papel de super- mulher também não é nada justo.
Casamento é parceria. Vida a dois é parceria. Sou casada há 14 anos e digo com toda a certeza que sem parceria não há chance de durar e ser feliz. E eu vim ao mundo para ser feliz. E fazer quem está à minha volta feliz. Não é?
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